3 maio 2010 5 comentários

O jogo do contente e o ambiente corporativo

Por Paulo de Tarso *

Conta a sabedoria popular um causo que é mais ou menos assim:

De madruga o telefone toca:
- Alô? É seu Carlos, é? Aqui é Uóxinton, caseiro do sítio.
- Pois não seu Washington, o que posso fazer pelo senhor? Aconteceu alguma coisa?
- Ah, não. Eu tô liganu pro sinhô prá avisá qui seu papagai morreu.
- Aquele meu papagaio campeão morreu? Como morreu?
- Di tantu cumê carne estragada.
- Mas quem foi que deu carne para o meu papagaio comer?
- Ah, foi ninguém, não sinhô. A carne era duns cavalo morto.
- Mas que cavalos, seu Washington?
- Ah, daqueles puro sangue qui o sinhô criava. Eles murreram di tantu puxá carroça di água.
- Mas que doidera é essa? Que carroça de água?
- Pra apagá o fogo do incêndio.
- Incêndio? Que incêndio?
- Na casa du sinhô… Caiu uma vela e pegô fogo nas curtina.
- Mas vela de que, se aí tem luz elétrica?
- Du velório.
- Velório? De quem?
- Da sinhora sua mãe.

- Minha mãe?!
- Sim, é qui ela apareceu aqui sem avisá e eu dei dois tiro nela pensando qui fosse um ladrão. Mas num se preocupe não que fora isso, tá tudu bem…”

Embora engraçado, este causo narrado pelo “Uóxinton” nos diz muito sobre o que acontece no ambiente corporativo, seja em empresas privadas ou órgãos públicos.

Trata-se do tradicional “jogo do contente”, uma artimanha política, da qual muitos se utilizam para evitar uma exposição que poderia, eventualmente, comprometer suas posições, funções ou conquistas. Como temem expor suas ideias e ideais, optam por pausar suas falas, fragmentando o quanto possível notícias que, em sua opinião, poderiam contrariar o “contente ambiente” hora estabelecido.

Veja que o vendedor nunca diz, de forma direta, que as metas não foram alcançadas. Prefere o conforto de dizer que vendeu “quase” todo o estoque ou “quase” todo o número a ser atingido, ainda que este quase signifique pouco mais que 50% da expectativa gerada. Quando não menos…

A área que produz bens e serviços não diz, também, que o projeto atrasou. É mais fácil dizer que está “um pouco fora do prazo” em função da ausência de determinado recurso que “alguém” ficou de disponibilizar. Admitir que o erro é da pessoa ou da área jamais!

A expedição, o financeiro, o marketing e tantos outros departamentos, usam e abusam dos mesmos artifícios, minimizando a importância pelo que não fizeram, atribuindo a responsabilidade a terceiros, sejam estes outras pessoas, outros departamentos, outras políticas, outros governos.

Todos sabem que este modelo de discurso muito bem construído, diminui o impacto negativo junto ao chefe. Assim como também, todos os chefes sabem que é um discurso para tentar amenizar a desculpa pelo que não fez.

O grave erro do “jogo do contente” é que, se quem está fazendo o discurso lembrar-se de valorizar o chefe, a empresa e suas políticas, o resultado pouco importará. E todos ficam contentes! Só informam que ‘a mãe morreu quando a importância dada ao papagaio tornou-se o centro das atenções’. A morte da mãe do “seu Carlos” é o mal menor.

Esse comportamento e o medo excessivo de expor, é uma constante em qualquer reunião em que estejam gerentes, diretores e até presidentes. Acontece mais ou menos assim: O presidente coloca sua opinião, ávido por ouvir os que concordam e os que discordam, mesmo que a opinião seja a mais descabida do universo – e olhe lá – haverá sempre um séquito de pessoas que vão concordar, sem ressalvas.

Contudo, haverá outro grupo quase do mesmo tamanho do primeiro, que ficará em silêncio, ouvindo em seus íntimos o dito popular que “se temos dois ouvidos e uma boca, é claro que precisamos ouvir mais e falar menos”. Invariavelmente, estes vão ficar “bem na foto!”

Por último haverá um grupo muito pequeno, formado por um, dois ou três colaboradores que não só vai expor o que pensa como, ousadia das ousadias, discordará do presidente, do preferido do presidente e, até mesmo do seu chefe, do preferido do seu chefe e de outros que seguem a linha filosófica de que, “quem não puxa saco, puxa carroça!”

O dramaturgo Nelson Rodrigues celebrizou a frase “toda unanimidade é burra”.

Se for de fato isso, devemos repensar a ideia de que a maioria absoluta desses colaboradores (os que concordam e os que ficam em silêncio) podem estar errados e, por este motivo, embora correndo o risco de perder benefícios, estão corretos os que ousam expor seus pensamentos e opiniões – às vezes nadando sozinhos contra a maré.

Parabéns às empresas que possuem esses “contestadores” e, mais ainda, apoiam o ambiente para que eles continuem expondo a fragilidade das ideias construídas com foco – muitas vezes, em nosso umbigo. Serão poucas as empresas que continuarão prosperando neste competitivo oceano, de mares vermelhos, azuis e até verdes.

Para as outras empresas, onde o que prevalece é a opinião de um ou de uns poucos – os que acham que sabem tudo e de tudo – em detrimento do conhecimento e opinião dos executores de outras áreas, resta-nos lamentar.

Isso não significa ser um contestador de tudo e de todos, simplesmente pelo prazer de contestar ou, até mesmo, de ir contra pessoas, processos e ideias. É preciso ter mente construtiva para contestar e, também, para apoiar, para recuar quando preciso e para fazer com que empresas e pessoas cresçam sempre.
Do contrário, mudarão o discurso, os personagens e, no fim de tudo, a culpa será da mãe que chegou de forma inadvertida e não do capiau que a fuzilou.

* Paulo de Tarso estudou empreendedorismo na Florida Christian University e University Central of Florida (EUA), possui MBA em Marketing pela Faculdade Alfa e MBA em Gestão Comercial pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. Atualmente, é sócio-diretor da Ephiciência Consultoria e Treinamentos, instrutor de treinamentos e palestrante sobre vendas, negociação, oratória, trabalho em equipe, conflitos no ambiente de trabalho, atendimento a clientes e liderança de equipes. Coordenou, gerenciou e liderou equipes ao longo de sua carreira e é gerente de negócios na Tron.

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5 respostas para “O jogo do contente e o ambiente corporativo”

  1. Reilly Rangel 3 maio 2010 em 15:22 #

    A “figura” de um contestador é válida na empresa, enriquece o debate e fortalece momentos de decisão, mas antes de tudo é necessário observar a natureza desta figura que pode ser bem o oposto de tudo isso e causar danos maiores que benefícios esperados.

  2. WENDEL 4 maio 2010 em 08:58 #

    UM CONTESDADOR PODE SER A CHAVE PARA UMA GRANDE IDEIA,OU O EQUILIBRIO DO CERTO OU ERRADO.MAIS TER CORAGEM PARA EXPOR OPINIÕES E UMA CONQISTA,DE QUEM SE IMPORTA EM ESTAR SEMPRE COM ALVOS BEM DEFINIDOS QUE NO FINAL BENEFICIARA A TODOS

  3. Elizandra Carmo Silva 4 maio 2010 em 13:36 #

    O Contestador pode ser comparado a uma “moeda”, tendo os dois lados, o lado positivo- que promove o cresimento e fortalece e o lado negativo – que só tem objeções mas não contribue com nada.

  4. Ralph Waldo Rangel 5 maio 2010 em 15:17 #

    Excelente texto, reflete a maioria das empresas e confesso que tenho dificuldades com colaboradores contestadores, mas opiniões diversas sempre enriquesse a discussão e tenho crescido muito depois que parei para ouvir opiniões alheias.

    Dâ-lhe Paulinho, me considero possuidor de uma certa intidimdade para te chamar assim, quero continuar recebendo seus textos e opiniões.

  5. Rose 19 julho 2010 em 19:25 #

    Segue


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